The Øriginal Journal
Wimbledon “baniu os influenciadores”. Mas o que estava realmente protegendo?
A questão não é quem merece entrar. É o que entrar exige de nós.
Por Lu · 8 de setembro de 2026
Uma ring light acendeu no meio de uma partida de tênis.
Para quem segurava o telefone, talvez tenham sido apenas alguns segundos. Na quadra, foi o bastante para interromper a concentração de jogadores cujo trabalho depende de ler uma bola em movimento a uma velocidade extraordinária.
A controvérsia mais recente começou no US Open deste ano, onde cerca de cem criadores de conteúdo receberam credenciamento oficial, quase o dobro do número registrado quando o programa começou, no ano anterior.
Durante uma partida, um grupo foi advertido por gravar enquanto o ponto estava sendo disputado. Ao longo do torneio, jogadores pediram repetidamente ao público que respeitasse o silêncio e a imobilidade que o tênis exige.
As manchetes que vieram depois anunciaram que Wimbledon havia “banido os influenciadores”.


A realidade é mais precisa.
Wimbledon não está proibindo influenciadores de entrar como espectadores ou convidados de marcas. O All England Club afirmou que não criará, em 2027, uma categoria específica de credenciamento para influenciadores e criadores de conteúdo. As regras atuais também restringem filmagens por profissionais credenciados e proíbem equipamentos ou comportamentos capazes de interromper o jogo.
É uma distinção que merece ser preservada.
A questão não é quem merece entrar.
É o que entrar exige de nós.
Não há nada de inerentemente desrespeitoso em fotografar uma partida. Uma fotografia pode guardar uma memória. Pode aproximar alguém de um esporte que nunca viveu e permitir que um momento extraordinário viaje muito além da quadra.
O problema começa quando já não estamos fotografando a experiência.
Quando a experiência se torna matéria-prima para a fotografia.
Nesse momento, o centro da experiência se desloca. A quadra vira cenário. A partida vira o intervalo entre uma publicação e outra. As pessoas ao nosso redor passam a fazer parte de uma produção na qual nunca concordaram em entrar. Até os jogadores podem se tornar secundários diante da prova de que estivemos perto o bastante para vê-los.
É por isso que a etiqueta importa.
Em uma partida de tênis, o silêncio durante o jogo não é uma encenação arbitrária de refinamento. Ele protege a concentração da qual o esporte depende. Permanecer sentado durante um ponto preserva a visão de quem está atrás. Esperar o intervalo antes de se mover ou fotografar permite que milhares de desconhecidos participem da mesma experiência sem disputar continuamente a atenção uns dos outros.
O ritual não tem valor porque exclui. Ele dá uma forma compartilhada à nossa atenção. Ensina desconhecidos a habitar juntos o mesmo momento.
Novos públicos não são o problema. O tênis não perde sua grandeza ao alcançar mais pessoas. Pode encontrar nelas uma nova vida.
Mas acesso sem contexto pode transformar até a experiência mais rica em algo a ser consumido e esquecido.
Wimbledon vira uma saia branca, morangos e o assento certo.
A Fórmula 1 vira um passe para o paddock.
Um ateliê privado vira uma parede diante da qual posar.
Uma boutique de luxo vira apenas mais um lugar onde o telefone entra antes da curiosidade.
O símbolo viaja mais longe do que o conhecimento que lhe deu sentido.
A mesma contradição vive dentro de um dos objetos mais desejados do mundo: a Birkin.
A Hermès continua sendo uma das expressões mais claras de uma maison de luxo construída em torno da artesania, do domínio técnico, da qualidade, da produção controlada, do reparo e de objetos feitos para serem usados ao longo do tempo.
A própria Birkin nasceu como uma resposta prática à busca de Jane Birkin por uma bolsa espaçosa.


Ainda assim, na cultura contemporânea, ela pode ser reduzida a pouco mais do que uma prova superficial de raridade, acesso e status.
A bolsa não se tornou menos bem-feita.
Talvez o nosso olhar tenha se tornado menos capaz de perceber a essência dentro do objeto. O significado para além de sua imagem.
O mesmo vale para um lugar, um esporte ou uma experiência.
O prestígio não diminui porque mais pessoas entram.
Ele diminui quando o reconhecimento substitui a compreensão.
Talvez o respeito comece antes de qualquer regra ser explicada.
Começa quando reconhecemos que um lugar não foi criado apenas para a nossa imagem.
Há pessoas trabalhando ali. Pessoas que esperaram para estar ali. Pessoas tentando escutar, concentrar-se, servir, criar, receber ou se apresentar.
Já existe um ritmo em curso, e entrar nele significa perceber onde chegamos.
Tire a fotografia.
Depois, abaixe o telefone e sinta o momento.
Não porque a fotografia esteja errada, mas porque o lugar tem mais a oferecer.
Aprenda quando o público fica em silêncio e por quê. Observe o ponto se desenvolver. Pergunte ao artesão o que torna aquele objeto difícil de criar. Deixe o lugar ser maior do que aquilo que ele pode emprestar à nossa identidade.

Estar presente não significa se recusar a registrar o momento.
Significa permitir que o momento se torne mais importante do que o registro.
Talvez a atitude mais prestigiosa que possamos ter em um lugar não seja provar que entramos nele.
Talvez seja aprender a pertencer a ele, ainda que por pouco tempo.
Que lugar só revelou seu verdadeiro significado depois que você aprendeu como estar ali?